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SÍNDROME DA FIGUEIRA FRONDOSA.

Sempre que ouço alguém dizer assim: “Eu sou uma pessoa verdadeira e transparente”, desconfio. Tem coisas que dispensam propaganda. Se alguém é de fato verdadeira e transparente, não precisa dizer, mas será naturalmente reconhecida por estas características. Quem sai em defesa de suas qualidades possivelmente não as tenham. Aquilo que sou é mais bem definido pelos que me observam, não por mim mesmo, posto sermos todos nós hipócritas.

Talvez os mais hipócritas sejam os que acabaram de discordar desta afirmação acima, já que ao discordar, estão, na verdade, elogiando a si mesmos.

 

A hipocrisia foi duramente combatida por Jesus Cristo, como sendo um dos piores vícios ou pecados. Os escribas e fariseus sofreram severa crítica dele por suas posturas tão semelhantes às nossas, cheias de fantasias exteriores. Máscaras.

 

A hipocrisia se define pelo indivíduo “duas caras”, mascarado, que diz uma, mas faz outra coisa. Atitude muito encontrada no meio político e também religioso, já que nestes meios circulam pessoas como eu e você.

 

O moralista francês François Rochefoucauld, desencantado com o gênero humano revelou, de maneira mordaz, a essência do comportamento hipócrita: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

 

No capítulo onze do Evangelho de Marcos lemos que “… Vendo Jesus de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando nela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos.”

 

Jesus secou uma figueira. Amaldiçoou e secou porque foi até ela procurar figos e nada encontrou se não folhas. A figueira primeiro dá os figos e só depois nascem as folhas. Figueira com folha é figueira que deve ter fruto. Mas Jesus, com fome, encontrou uma figueira hipócrita. Linda, cheia de folhas, frondosa, mas que mentia. Tinha jeito de quem estava produzindo, mas nada produzia. Tinha aparência, mas não essência. Uma figueira mentirosa, fingida, mascarada por sua folhagem, com aparência de virtude, mas, uma propaganda enganosa. Uma figueira fingida: a síndrome da figueira frondosa. Por isso a figueira foi amaldiçoada, por despertar nas pessoas falsas expectativas e desejos que não poderiam ser satisfeitos, uma defraudação do faminto.

 

Jesus não amaldiçoou a figueira por ela não ter fruto e nem por ela não dar frutos. O texto conta que não era tempo de figos. Nem todas as pessoas darão frutos todo o tempo e algumas pessoas serão naturalmente mais frutíferas em suas vidas que outras pessoas. A questão não é dar ou não frutos. A questão é fingir que tem frutos.

 

Você não ser uma pessoa boa, não é problema para Deus, mas você hipocritamente fingir ser uma pessoa que de fato não é, isto é uma mentira que Deus não tolera: hipócrita! Quando vemos os perfis nas redes sociais descobrimos o quanto gostamos de nos pintarmos mais belos, cultos, “smarts” e antenados do que realmente somos…

 

Nossa objetivo deve ser, racionalmente, travar uma luta contra a “síndrome da figueira frondosa”. Não fingir ser o que, de fato, não sou, mas assumir-me em minhas fraquezas, medos, inseguranças, feiúras, burrices, egoísmos, arrogâncias, preconceitos… Lutando diariamente contra as minhas mazelas comportamentais e existenciais.

 

Marina não é um Messias de saia.

 

Apesar de não ser difícil perceber minha grande simpatia por Marina Silva, ainda assim algumas pessoas me questionam, por e-mail ou pessoalmente, em quem votarei. Sempre busquei não fazer apologia política neste espaço, mas creio que a envergadura deste momento cívico – decisório para milhões de brasileiros cristãos – comporte este exercício constitucional e democrático do direito de livre expressão.

 

Meu voto pertence à Marina Silva.

 

  • Copio abaixo um pequeno vídeo que resume a razão desta minha opção por Marina, já há muito tempo.

 

  • Copio também um texto do teólogo Ed René Kivitz, pois as palavras dele calaram em meu coração, e dificilmente me expressaria melhor que ele neste momento político.

 

“PORQUE MARINA SILVA

 

O povo brasileiro já percebeu: não é hora de virar as páginas, é hora de mudar de livro.

 

O que me traz a esse lugar e a essa hora é a convicção de que a imagem usada por Caio Fernando Abreu veste perfeitamente o atual momento do Brasil, e encontra em nossa irmã Marina Silva aquela que melhor conseguiu captar a voz das ruas , e está em sintonia com o desejo de mudança que mora no peito dos brasileiros.

 

Mas não podemos ser negligentes à realidade de que o inusitado que colocou nas mãos de Marina Silva a possibilidade concreta de ser eleita para ocupar a presidência da república,

resultou em outro fato igualmente significativo: o recrudescimento do debate a respeito da identidade evangélica.

 

Considerando os necessários descontos em razão dos discursos acalorados pelo processo eleitoral é razoável dizer que o imaginário popular é influenciado a ponto de ver transformado o nome evangélico em uma espécie de xingamento, adjetivo pejorativo associado a pessoas de fé e boa vontade.

 

Nos mobilizamos não apenas para apoio e suporte a uma candidatura que nos representa e carrega consigo muito do ideário cristão. Também nos aproximamos para adensar nosso compromisso em defesa daquilo que é maior do que qualquer projeto político, a saber, o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, e sua Igreja.

 

Não aceitamos a idéia de que ser evangélico é ser ignorante, moralista, homofóbico, sectário, intolerante. Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado como aquele que “andou por toda parte fazendo o bem”, lançando no coração humano as sementes do amor, da generosidade, do perdão e da solidariedade, virtudes absolutamente distantes de quaisquer perspectivas que alimentem o ódio, a condenação, a exclusão, e a segregação. Em seus passos o povo pacífico desse país caminha.

 

Devemos recusar a ideia de que ser evangélico é ser manipulável e manipulador.

Rejeitamos a sugestão de que a consciência do povo evangélico seja propriedade de quem quer que seja, e esteja cativa de ideologias e programas menores do que a agenda do reino de Deus. Igreja não é lobby. Igreja não é partido político. Igreja não é instrumento de pressão.

Igreja não é curral eleitoral. Púlpito não é palanque. Altar não é plataforma para comício.

 

Não podemos nos calar diante daqueles que falam em nosso nome, como se o povo evangélico fosse um bloco monolítico, que segue a cartilha de um homem só.  Com todo o respeito e estima que merece nosso irmão Jorge Mario Bergoglio ( Papa Francisco), nós evangélicos não temos papa. Temos um sem número de irmãos anônimos que há anos militam por uma sociedade de justiça e paz, um Brasil republicano e democrático. Embora não somem em nossas fileiras nesse processo eleitoral, são dignos do nosso respeito e consideração. Ainda que trilhemos caminhos diferentes, todos estamos de mãos dadas em busca de um país que supere a fome, a miséria, a corrupção sistêmica, e o fazer político viciado no apêgo ao poder pelo poder, aos ganhos individuais em detrimento do bem comum, à apropriação da res pública para satisfação de interesses particulares.

 

Por essa razão, no exercício de nosso sacerdócio religioso, como pastores e pastoras,

orientadores espirituais desse imenso contingente da população brasileira que se identifica como evangélico, é urgente reafirmar os compromissos que sempre nos caracterizaram

ao longo de nossa história. É tempo de reafirmarmos o compromisso com a justiça em sua máxima abrangência e a promoção de uma cultura de paz.

 

É tempo de reafirmarmos o compromisso com o Estado Laico: a liberdade de culto e crença,

a isonomia entre todas as tradições religiosas, (inclusive a defesa do direito de não pertencer a qualquer tradição religiosa), e o respeito às consciências individuais. É tempo de reafirmarmos o compromisso com a unidade, na esperança de que o debate ao redor de um pleito eleitoral

nos aproxime para a defesa de valores comuns, em vez de nos distanciar em razão de valores menores do que aqueles que nos unem: uma casa dividida não prevalece, nos advertiu Jesus.

 

É tempo de reafirmarmos o compromisso com a defesa dos direitos humanos e das minorias,

a diaconia e o serviço, mantendo nosso coração alinhado aos profetas que nos ensinaram a abraçar a causa do órfão, da viúva e do estrangeiro, dos fracos e vulneráveis, dos que não têm vez e não têm voz. Quando nos ensinou a governar, Jesus não nos apontou o caminho do trono. Colocou em nossas mãos uma bacia e uma toalha. Lavar os pés é o nosso jeito de exercer o poder. É com base nesses compromissos, que expresso meu apoio à candidatura de nossa irmã Marina Silva. E sei que trago comigo, nessas poucas palavras, muitas vozes.

 

Marina é a proposta que ultrapassa os maniqueísmos, como partido A contra partido B,

classe média e elite contra pobres e miseráveis, ciência contra religião, o povo contra o governo. Marina sabe caminhar em meio às contrariedades e propõe uma forma criativa de lidar com as tensões do diverso. Marina é a superação da política bipolar.

 

Marina vem da floresta, nasceu no berço da (bio)diversidade. A complexidade é seu habitat natural. Não devemos confundir flexibilidade, abertura ao diálogo, capacidade de inclusão,

respeito às divergências, essenciais ao espírito democrático, com claudicância, inconstância e incoerência.

 

Devemos temer mais a prepotência dos que pretendem governar o mundo com a caneta na mão, do que o espírito conciliador dos que injustamente são acusados de escrever programas de governo à lápis. Marina, minha irmã, não se assuste nem se deixe intimidar, só agride quem tem medo. Em sua infância na luta contra a fome, deve ter aprendido o que minha avó também me ensinou: “só recebe pedra árvore que dá bom fruto”.

 

Marina representa a política para além de números e estatísticas. Está inserida na vida pública fundamentada em valores e princípios éticos, o que é próprio daqueles cuja consciência se conserva no temor a Deus, maior instância de juízo, pois único justo juiz .

 

Marina não é seguidora de Maquiavél, para quem os fins justificam os meios, mas seguidora de Jesus, que nos ensina a cuidar das coisas do reino de César sem sacrifício dos valores do reino de Deus. Marina é uma liderança qualificada, seu compromisso com a justiça não é posicionamento de campanha. É sua biografia, sua história, seu serviço prestado ao país,

que ganhou reconhecimento mundial.

 

Votamos em Marina não porque é nossa irmã de fé, mas porque a julgamos preparada para o cargo a que postula, tendo a história como testemunha de sua experiência, capacidade, com ampla legitimidade popular. Votamos em Marina não porque “irmão vota em irmão”. Não estamos elegendo uma autoridade religiosa ou eclesiástica.

 

Votamos em Marina porque julgamos que reúne condições de conduzir o Brasil, não apenas na manutenção dos inequívocos avanços dos últimos anos, mas também e principalmente de maneira a qualificar, aprofundar e ampliar as conquistas que nos fazem cultivar a esperança de um futuro que possa incluir na festa da abundância um número ainda maior dos nossos concidadãos brasileiros.

 

Por Marina, e junto com todos os que caminham ao seu lado, levantamos aos céus nossa oração, suplicando que nessa terra e nesse chão, “corra a retidão como um rio, e a justiça como um ribeiro perene!”

[Amós 5.24]

 

Sim, sabemos que Marina não é um Messias de saia. Como todos nós, Marina é fruto de uma história, e honra suas origens. Mas seu projeto de futuro não é mais do mesmo pois de fato,

não é hora de virar as páginas, é hora de mudar de livro.

 

Até a posse.”

 

Ed René Kivitz

São Paulo, 26.09.2014

É mentira!

Que atire a primeira pedra quem nunca contou uma mentira! O mais curioso é que o dicionário define como mentiroso o indivíduo que conta uma mentira, contudo, se alguém nos chama de mentiroso, ficamos ofendidos, afinal, esta é a mais revoltante das verdades que podem ser ditas a nosso respeito. “Eu sei que mentiroso sou, mas não me conte esta verdade, minta pra mim e serei feliz!”. Para alguns, a mentira é, muita vezes, tão involuntária como a respiração.

Mas… Porque mentimos?

Nietzche disse que “existe inocência na mentira quando há sinal de boa fé numa causa”, ou seja, ele (como Platão) defende a mentira social como uma coisa não ruim. Mas, mesmo Nietzche, que entendeu estar na motivação da mentira sua possível virtude, posteriormente afirmou: “fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.” Ou seja, a mentira descoberta corrói até seus defensores. Ninguém quer ser vítima de mentiras, apesar de regulares algozes.

Mas… Porque mentimos?

Hitler construiu-se em mentiras, sendo contado entre os poucos que conseguiram crer tão asseveradamente em suas alucinações, que todos os que o rodiavam creram junto. Ele disse que “as grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha”, e assim não poupava excessos, fazendo escola dentre seus asseclas: “Uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade” (Goebbels, Ministro das Comunicações de Hitler).

A mentira pode ter muitas raízes e inúmeros objetivos, mas em geral, a mentira ou é conseqüência do medo, por medo das conseqüências da verdade, ou é conseqüência da vaidade, desejando ser o que não se é, já que a verdade pode ser inconveniente (link).

Tanto o medo não é um sentimento bom, que Jesus, por vezes, disse: “Não temas!”, pois o medo paralisa, mas também faz mentir.

Se eu não tiver medo da punição ou da vergonha, falarei verdades: mentira é um tipo de covardia.

Crianças pequenas aprendem pela experiência que declarar uma inverdade pode evitar punições por más ações: mentira é um tipo de imaturidade emocional.

A vontade de ser mais do que realmente é e a vaidade também é um tipo de doença da alma que caminha de mãos dadas com a mentira. Muitas vezes queremos parecer tanto ser o que não somos que acreditamos em nossas próprias mentiras, vivendo uma fantasia:

“Meu casamento está ótimo!”

“Meus filhos são inteligentes, apenas não tiveram oportunidades…”

“Meu empregador não sabe o talento que está desperdiçando ao me demitir: Eu sempre carreguei esta empresa nas costas sozinha…”

Contudo, “mentir pra si mesmo, é sempre a pior mentira”. Neste contexto, Anais Nin afirmou que “a origem da mentira está na imagem idealizada que temos de nós próprios e que desejamos impor aos outros”.

O diabo mentiu para Eva para obter vantagens e parecer ser o que não. Já Eva, mentiu por medo. O medo fez Adão esconder-se. Uma vez a verdade revelada, Deus perdoa os dois, primeiro com o sacrifício de um cordeiro, depois com o sacrifício d’O Cordeiro. Deus, sempre perdoando os mentirosos, já que Ele não é como nós, que mentimos e não perdoamos mentirosos como nós. Daí a necessidade de Jesus esfregar na nossa cara-de-pau: “Pai nosso que está nos céus, perdoa as nossas ofensas e mentiras, da mesma forma que temos perdoado os que nos tem ofendido e mentido para nós”.

Mas não. Não quero perdoar os que para mim mentem. Anelo apenas alcançar perdão, já que as minhas mentiras são sinceras e “mentiras sinceras me interessam”.

Jesus não foi diplomático com relação aos mentirosos contumazes, pois ele disse a estes: “Vocês são filhos do Diabo e querem fazer o que o pai de vocês quer. Desde a criação do mundo o Diabo foi assassino e nunca esteve do lado da verdade porque nele não existe verdade. Quando o Diabo mente, está apenas fazendo o que é o seu costume, pois ele é mentiroso e é o pai de todas as mentiras”. Putz! Jogou pesado.

Mas não é apenas no Novo Testamento que a mentira é mal tratada, Salomão já demonstrava desprezo por este hábito ao dizer que “existem sete coisas que o SENHOR Deus detesta e que não pode tolerar: o olhar orgulhoso, a língua mentirosa, mãos que matam gente inocente, a mente que faz planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que diz mentiras e a pessoa que provoca brigas entre amigos”. Poxa! Nem Deus tolera as suas mentiras…

A mentira não é bem vista pois o mentiroso, por medo ou por vaidade, pode causar estragos para si e para outros. Além de ter pernas curtas, a mentira também anda bem armada: “A pessoa que diz mentiras a respeito dos outros é tão perigosa quanto uma espada, um porrete ou uma flecha afiada” (Provérbios 25:18).

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SERÁ QUE MENTIR PRA SI MESMO É MESMO SEMPRE A PIOR MENTIRA?

 

 

 

 

Ganhei coragem.

Por Rubem Alves

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece“, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos“. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: “O povo unido jamais será vencido“: é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo“ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo… Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os 10 mandamentos. E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou… Passado muito tempo Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos… E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre…“ Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela não era confiável. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis“ por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo… Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições – e a democracia – são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o VolkswagenVolk, em alemão, quer dizer “povo“…

O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos… Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol…). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno“, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção…“ Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.

 

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E por falar em coragem, para mostrar os bastidores da publicidade, o Mc Donalds precisou de muita coragem…

 

Evolucionismo e Criacionismo (ou debate político?)

Uma amiga me enviou esse vídeo da candidata à Presidência pelo PV, Marina Silva. Em entrevista a editores da IstoÉ, ela falou sobre ciência e religião; mais especificamente, sobre três assuntos: a pesquisa com células-tronco embrionárias, o criacionismo e o ensino de “alternativas à evolução” (leia-se criacionismo e DI) nas escolas.

…Acho que ela se saiu bem no vídeo. A primeira pergunta tentou estabelecer aquela falsa dicotomia entre ciência e religião, como se todo cientista fosse favorável às pesquisas com embriões (o que é mentira) e como se todo religioso fosse contrário às pesquisas (o que também é mentira). Marina deu uma resposta bem clara: não é questão de religião, e sim de ética. É a ciência, e não a religião, que determinou o status do embrião como novo ser humano, com um código genético único. É partindo desse status que os cientistas devem tomar decisões éticas.
Marina é integrante da Assembleia de Deus, e não sei se essa denominação tem alguma posição oficial acerca do criacionismo, o que justificaria o uso do termo “dogma” por parte da jornalista (se bem que tradicionalmente o jornalismo usa muito mal o termo “dogma” quando o assunto é religião). Achei que na segunda pergunta a candidata foi um pouco mais escorregadia, afinal a questão não é se “99% dos brasileiros” acreditam em um Deus criador; o que diferencia um criacionista é que ele tem uma visão particular sobre como se deu essa criação. Mas o seu comentário sobre a fé não se justificar pela ciência, e sobre a ciência não precisar da chancela da fé, é perfeito.

Já na terceira pergunta, se o episódio se deu exatamente como a candidata descreve, só posso lamentar que a coisa tenha sido distorcida assim. O Reinaldo Azevedo, que também não morre de amores pela Marina, já previa que ela seria vítima de um bombardeio do “politicamente correto” por causa de sua posição sobre certos temas. Vai saber se essa discussão sobre o criacionismo na escola foi reflexo da “blitz midiática”… curiosamente, a própria Sociedade Criacionista Brasileira é contra o ensino do criacionismo nas escolas, como me disse o biólogo criacionista Tarcísio Vieira em uma entrevista.”

Contribuição: Márcio Campos, do Tubo de Ensaio.
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