A Bailarina e o Bobo.

bule

A Bailarina e o Bobo.

                                                                                                                   por Simone Melo

E no meio da bagunça que causa toda faxina a menina viu velas velhas e as jogou fora sem titubear. Logo vieram as chuvas de verão e com a força de uma tempestade caiu sobre o cabo de energia da casa da menina uma grande e velha árvore, a luz apagou e sobrou o breu. A menina pensou em procurar as velas, mas se lembrou que as havia jogado fora, sentiu um calafrio e esteve certa de que nunca se deve jogar possibilidades de luz fora, mesmo que elas sejam velhas, velhas demais. Não restava nada a fazer naquela noite a não ser descansar e recobrar a luz.

Na manhã seguinte o fim da tempestade era claro, galhos amontoados na porta da casa, poeira sobre a mobília, folhas que iam do piso azul turquesa da varanda ao cais. A vitrola velha e dourada lentamente despertava-se com notas médias, como quem acende sem querer quando exposto ao calor do sol, assim como um hibisco. A menina tomou a vassoura por par e foi dançando em direção a toda sujeira deixada pela escuridão e tempestade. Quem passou pelas grandes janelas de vidro do casarão naquela manhã jamais soube descrever se a menina dançava a música que fugia da vitrola ou se a musica dançava ao som da menina que fugia de si mesma.

Enquanto encontrava folhas de diversas formas, cheiros e cores lembrou-se do velho castelo de grades. Estremeceu. Pensou no pobre bobo, ainda cativo. Chorou. Lembrou da penumbra matinal do antigo lar. Temeu. E enquanto recolhia as folhas sentiu das narinas à língua o cheiro de café, não um café comum, o café feito pelo Encantador de vidas. O castelo de grades caiu de sua lembrança como caem latas vazias de sobre galhos altos e na ponta dos pés correu até a cozinha para abraçar o velho rabugento de olhos grandes que a amava:

Ora olhe quem se lembrou da bailarina feia!

O velho soltou o bule e a chaleira, se virou de costas e permitiu que ambas concluíssem seu trabalho de coar o café. A chaleira desejou queixar-se, mas o velho a impediu com um leve olhar de canto:

Olha quem se lembrou desse velho Encantador! Basta uma tempestade para você me querer mais que precisar! Disse o velho enquanto fitava a menina com os olhos do tamanho da eternidade.

Abraçaram-se cúmplices, longamente. Quanto tempo duravam os abraços entre a menina e o velho nem os anjos puderam discernir.

Velho bobo. Disse a menina. Não sabe mais o caminho do casarão? Por acaso está caduco? Ontem enquanto a tempestade açoitava as paredes da casa me percebi sem nenhuma luz.

O velho se virou como se não se importasse, tomou o bule, acenou para um par de xícaras amarelas na pequena prateleira de madeira e elas se jogaram sobre a mesa. Sentou devagar e objetou como bom advogado que era:

Ah, menina doida, o que faremos com você? Você sempre me manda embora quando o céu se mostra turvo. Sabia da tempestade. Onde estavam as luzes?

Perdi – respondeu rápida. Não, na verdade as joguei fora enquanto faxinava o casarão!

Pois deve ter limpado as gavetas erradas pequena menina. Tanta desordem por aqui e você se livra das velas? O que faremos com essa sujeira? O que você esperava, que uma tempestade fizesse menos dano que as outras?

O bule se deitou ligeiro sobre a xícara da menina, derramando um café escuro e puro como uma velha e sábia preta. A menina engoliu sem dó o café encantado e respondeu:

Não sei velho, mas é que às vezes sinto falta do castelo, sinto falta das possibilidades e sinto falta do bobo, que será do bobo?

O velho encostou os óculos de aros finos e arredondados na cara, suspirou e respondeu suave como a fumaça que subia das xícaras:

Menina, quem é livre deveria sentir falta do cativeiro? Quem reconhece os encantos do céu deveria desejar o cheiro de morte da terra?

Vou me ausentar, vá limpar sua bagunça, não me chame se precisar. Estarei aqui. O velho beijou docemente a testa da menina e desapareceu pela porta dos fundos.

A bailarina sentiu raiva de si mesma. A menina se sentiu amada pelo seu encantador, velho e sábio. A bailarina pensou no bobo e chorou, chorou o suficiente para sentir paz e foi arrumar a casa. A casa que era dela e pertencia ao Encantador.

 

Simone Melo

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