TOLERÂNCIA E ARROGÂNCIA.

A intolerância não aponta apenas para a dificuldade em lidar com o diferente (diferenças de opiniões, diferenças de preferências, diferenças políticas) mas, sobretudo, aponta para a arrogância. O intolerante considera-se tão justo e tão certo em suas opiniões e convicções que converte o outro em idiota, um estorvo contraponto.

Nada de errado em se ter opiniões bem formadas, ou até mesmo defendê-las. Entretanto, achar-se o dono da razão integral e não tolerar opiniões distintas é sinal de um adoecimento da alma: precisa de tratamento do Espírito Santo.

Sim, o intolerante é um doente social, um psicopata, vampiro de almas, mas, sobretudo, um fraco. O intolerante é aquele sujeito tão fraco, que se sente tão ameaçado com o diferente, que precisa defender firme opinião sobre suas teses. Defender suas teses como uma galinha defende os seus pintos, para dar pinta de galo. O intolerante, por medo ou insegurança, veste esta máscara de forte. Como ironizou Aleister Crowley, um mago, hedonista e crítico social que ia contra os valores morais e religiosos do seu tempo: “Intolerância é evidência de impotência”.

A pessoa não consegue ouvir e respeitar opiniões alheias sem querer converter o outro, conversar sem impor seu ponto de vista ampliando o volume da voz ou desqualifica sentimentos e limitações do interlocutor, além de ser uma “desmancha-rodinha” mal-educada, é também uma alma aflita, desesperada por dizer a si mesma que é alguém de valor.

Mesmo sendo dono de opiniões certeiras, em seus diálogos, Jesus sempre queria primeiro ouvir o outro. Ele sempre perguntava. Poucas vezes emitia opiniões, mas, no máximo, dava ao interlocutor pistas para que o outro pudesse pensar e chegar às suas próprias conclusões.Jesu s não impunha respostas prontas. Jesus não humilhava quem pensava diferente, nem se recusava dialogar com o diferente. Jesus dava aos ouvintes o privilégio da dúvida: a chance de pensar!

Se alguém pensasse diferente dele, ele jamais daria “block” ou “unflollow”. Ao contrário, muitos são os diálogos que ele trava com os fariseus.

Perguntavam: “Tu és o Cristo?”. Ele respondia: “O que você acha?”, ou “Tu o dizes!”

Perguntavam: “Devemos apedrejar esta pessoa?”. Ele respondia: “Se a pessoa for culpada deve ser apedrejada, pois a Lei de Moisés diz que sim, vocês podem apedrejar. Mas quem não ter erros que seja o primeiro a tacar uma pedra…”.

Jesus obrigava as pessoas a pensarem e a sozinhas concluírem o que fazer ou não.

Jesus não fazia questão de impor opiniões. Ele sabia quem ele era. Ele estava muito acima das opiniões alheias… Ele tolerava a arrogância e a falsa humildade. Tolerava a ignorância e a pseudo-sabedoria. Muitos de nós, contudo, nos consideramos tão tolerantes, mas tão tolerantes, que paradoxalmente não toleramos os intolerantes… Giacomo Leopardi, um dos maiores poetas italianos, mesmo sendo um pessimista melancólico, afirmou: “nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância.”

E eu? Quanto eu ainda preciso subir em minha caixinha de fósforos para discursar opiniões pretensamente sábias e perpétuas?

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6 comentários em “TOLERÂNCIA E ARROGÂNCIA.

  1. Antes de tudo peço a AUSTERIDADE de todos, obrigado.

    Ah, finalmente um lugar para eu usar este termo: Agnóstico!
    Não falo do crente não-religioso(não quis dizer herege), mas sim a pessoa que segue a origem da palavra ao pé da letra – o ignorante.
    Maia que me perdoe, mas achei cômico quando inseriu Jesus como o anti-agnosis. O cômico que digo está no ponto em que usas apenas Jesus Cristo como o anti-agnosis e acaba, por ironia, a dizer que o homem Jesus é superior ao ser humano comum. Não digo que exalta o Cristianismo, mas a figura de Jesus Cristo – o gnóstico.
    E além disso, quem garante tais palavras? Não quero ser taxado de imbecil por este comentário, mas é óbvio que boa parte do que foi transcrito aos chamados “livros sagrados” é composto por relatos tardios feitos por posteriores líderes religiosos. A este ponto, brincarei “deste” Jesus e vos digo:
    “Quem é o anti-agnosis para você?”
    Dei-lhes o benefício da dúvida… e a penitência de alcunha “realidade”. Sim?

    “As convicções são inimigas ainda mais perigosas da verdade que a própria mentira.” – Friedrich Nietzsche

    • Mateus,

      a demora na resposta foi minha ausência do país por um tempo.

      Sua análise é ótima e tive que lê-la por ao menos três vezes para poder alcançar sua elevada erudição. Muito bom “conversar” com quem tem mais que nós dentro da mala.

      Vamos “pensar e deixar pensar”.

      Abraço,

      Maia

  2. É um ótimo ponto de vista atigindo diretamente grande parte dos seus leitores.
    A construção de um pensamento faz com que a pessoa crie uma lógica saudável e raciocine mais, perdendo então o hábito de dar respostas prontas e acreditar sempre em uma única verdade.
    Obrigado por esse texto maravilhoso.
    Irei tentar provocar mais dúvidas nos outros do que afirmar as vezes a falsa verdade por duvidar de mim mesmo.

  3. Amei e agradeço seu excelente texto.
    Felizes e abençoados dias, abraços
    Maria Teresa

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