DJANGO: JUSTICEIRO OU VINGADOR (ou ‘como o ódio ganhou a guerra contra o amor’)

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DJANGO LIVRE: OSCAR DE VINGANÇA.

Certa vez assistindo a algum telejornal, a reportagem apresentava a cena de um atropelamento seguido de óbito. A equipe jornalística chegara a tempo de registrar o drama dos familiares da vítima. Um familiar era entrevistado e dizia aos gritos que a justiça tinha que ser feita, outro pranteava o morto e clamava por justiça.

Aquela reportagem me incomodou não apenas pela crueldade da cena, crueza do cenário ou pela violência urbana que invade as casas pelas antenas de TV, mas, sobretudo, pelo clamor de justiça, o qual estava claramente pavimentado num concentrado desejo de vingança.

Mais que o cumprimento do código de trânsito, estava estampado nos olhos vermelhos e palavras estridentes dos familiares o ódio ante à imcompreensível perda, manifestado no desejo de o condutor do veículo, se possível, fosse alí mesmo linchado, pagando com sua vida a perda da outro. A matéria não concluiu se o atropelamento foi culposo ou doloso.

Assisti mês passado ao aplaudido filme Django Livre. Mais uma obra-prima cinematográfica do celebrado diretor Quentin Tarantino. Cinematografia de classe… Da trama pode-se extrair inúmeros elementos para reflexão, contudo, o que mais me chamou atenção foi o sentimento de vingança que movia o coração do protagonista, Django. Muito mais que justiça, vingança era o estímulo que o dirigia. O público, inebriado pelo enredo original, celebrava cada ato de vingança, cada “olho-por-olho”, cada “dente-por-dente”. Um negro alforriado, com o coração transbordando de ódio, matando aqueles que o fizeram sofrer dentro de um desumano regime escravagista.

Até o pano de fundo do enredo (ele e seu companheiro eram caçadores de recompensa) devassava o íntimo relacionamento passional entre o senso de justiça e o desejo de vingança. Numa crítica fina, não se identifica se os protagonistas eram justiceiros, vingadores ou apenas mercenários. Oscar de roteiro original.

Contudo, vingança, nada tem de original…

Considerando que o regime escravagista foi um demônio exorcizado, qualquer traço de preconceito racial tem de ser e hoje é contundentemente repelido. Assim, as cenas de assassinato, crueldade, ódio e vingança que representavam Django vingando-se de brancos eram celebradas pela platéia. A vingança ganha charme quando a cultura relativiza as razões. Falar que o solitário vingador racial Django está errado aos cometer inúmeros assassinatos poderia dar margem para alguém ser chamado de racista, fascista ou retrógrado, pois no senso comum, quem mata merece morrer. Quem atropela, merece ser atropelado? Numa cultura de extremos, equilíbrio pode ser crime.

Eu conversava com uma mulher que havia se separado do marido havia pouco tempo. A pedido do marido, cheguei a falar com ela para tentar reverter a situação, mas ela foi contundente: “Não há chances de eu voltar com ele”. Contudo, muito rapidamente ele já estava com outra pessoa. Três meses depois voltei a conversar com ela e, sem eu entrar no mérito da questão (pois não era eu quem dormia com ela, ou com ele, e não há como julgar os segredos da alcova) em seu novo discurso, ela estava cheia de tristeza: residia raiva e rancor pelo fato de o “ex” transparecer estar feliz no novo relacionamento com uma nova namorada que era uma pessoa muito bacana. Mais que tristeza pelo que passou, pela dor da perda e pela angústia do fracasso conjugal, seu coração movia-se mais pela raiva do sucesso alheio. Muitas vezes a vingança é desejar que o outro caia na desgraça ou infelicidade, assim nos sentiremos bem, não com nosso sucesso, com nossa paz ou com nossa vitória, mas nos alegraremos nas derrotas alheias. Vingança escorrendo pelos poros.

Se o outro estiver mal, daí me sinto bem. Assim, alguns medem seu sucesso a partir da comparação com a vida alheia. Se o outro que me aborrece estiver feliz… Quero sua derrota, por vingança. Muitos dos que se entristecem com a alegria alheia possuem um espírito vingativo e se alegram quando o mal bate na porta do desafeto, contudo, disfarçam sua feiura existencial com a frase: “Eu sou uma pessoa muito justa!”, ou pior, “Foi feita a justiça de Deus”. Se a justiça divina fosse realmente feita, não sobraria ninguém para assistir ao espetáculo de horror. Mas, ao contrário, Deus é paciente e não, Ele não é vingativo como seu seu padre ou pastor o fez crer.

Já disseram que o diabo é um psicopata em constante busca por vingança. Ele vai pro inferno, mas quer levar toda a criação junto com ele. Não se associe com este sentimento demoníaco, desejando que seus desafetos ardam no inferno existencial no qual você se encontra.

Jesus disse para não pagarmos na mesma moeda, não retribuir o mal com o mal, mas pagar o mal com o bem. Ele nos ensinou a dar a outra face, por amor, não por justiça. Dar a outra face, andar a segunda milha, dar também a camisa para aquele que lhe subtrai o paletó não é justiça, a qual os homens clamam, mas uma coisa ilógica chamada amor, que, de fato, poucos, muito poucos querem saber deste ridículo e incompreensível discurso e prática de Jesus.

Há muito tempo, na África, as tribos mais fortes escravizavam as mais fracas e as submetiam a trabalhos forçados. Os escravizados não viviam felizes e sonhavam com um dia de vingança, que quase nunca chegava. Tempos depois apareceram no litoral umas outras tribos de pele mais clara que moravam em grandes barcos e que estavam dispostas a pagar por aquelas pessoas escravizadas. As tribos mais fortes viram que era um ótimo negócio comercializar seus escravos e assim se estabeleceu um profícuo comércio entre as tribos africanas fortes e as tribos dos brancos que moravam em caravelas. Os escravos que eram vendidos pelos negros foram levados pelos novos proprietários para terras muito distantes num lugar chamado América. Lá eles eram revendidos para outras tribos de brancos. Muitos e muitos anos mais tarde todos aqueles africanos desterrados deixaram de ser escravos por força de uma nova lei daquele continente e alguns prosperaram como homens livres. Contudo, para as tribos fortes que permaneceram na África a história foi mais cruel e hoje muitos africanos sobrevivem da ajuda humanitária proveniente também de descendentes dos “irmãos” que foram vendidos pelos seus desumanos antepassados. São inúmeras ONGs, projetos sociais e campanhas de arrecadação capitaneadas por músicos negros americanos buscando melhorar a situação da África.

Creio que dentro dos porões dos navios negreiros, aqueles homens, tratados como mercadoria, alimentavam profundos sentimentos de vingança com relação aos seus irmãos que os vendiam aos brancos e, possivelmente, amaldiçoavam toda a descendência dos que na África ficavam. Contudo, eles jamais poderiam sequer suspeitar que a vingança nunca viria, mas que seus descendentes, na verdade, movidos pelo amor ao próximo, seriam solidários com os descendentes dos seus algozes. O filme não mostra, mas Django, caso não fosse apenas um personagem de ficção, deveria também alimentar seu ódio aos negros que escravizaram seus pais na África.

A solidariedade dos negros do continente americano para com os negros do continente africano é uma linda demonstração de que o amor deve superar o sentimento de vingança, travestida de justiça. Esta análise acima gera um sentimento paradoxal, pois numa cultura de extremos, equilíbrio pode ser confundido com fascismo. A dívida histórica dos brancos para com os negros não pode ser justificada pela tirania das tribos africanas fortes contra as tribos africanas mais fracas. Bem como a tirania das tribos negras fortes não pode ser minimizada pela barganha ofertada pelas tribos brancas. Ética e amor ao próximo não deveria ter cor. Jamais sejamos racistas: Injustiça é inerente ao ser humano, não à cor de uma pele.

Mais que clamar por justiça, deveríamos viver em amor… Justiça seria, assim, uma consequência do amor. Mas este é um discurso tão distante da realidade dos cristãos e das organizações que se proclamam cristãs… Alguns dos que clamam por justiça e compensações humanas, estão, por vezes, ancorados em odiosa vingança. Oscar para intolerância.

Justiça é um atributo divino. Contudo, sob pretexto dela e sem os sinais do amor, as sociedades contemporâneas têm sofismaticamente aberto as portas para vinganças de classes. Mas, expressar esta opinião, nesta altura do campeonato, pode ser, desde politicamente incorreto, até uma sentença de morte (por vingança).

Indico também a trilha sonora: espetacular.

2 comentários em “DJANGO: JUSTICEIRO OU VINGADOR (ou ‘como o ódio ganhou a guerra contra o amor’)

  1. É! Preciso me converter, pois me diverti muuuito com este filme.
    Escutando a trilha fiquei com vontade de assistir novamente.
    Como ainda não tenho o DVD, acho que vai o Kill Bill mesmo. Hehe.

    Um abração, Luciano.
    Deus te abençoe sempre.

    • CONVERTER?????

      ENTÃO EU TAMBÉM PRECISO!!! Hahahah!

      Mano, eu também me diverti muuuito vendo não apenas este, mas como a maioria dos filmes de Quentin Tarantino.
      Minha crítica não diz respeito a não gostar. Meu artigo diz apenas respeito a sempre termos uma visão crítica de qualquer coisa. Basta sabermos olhar tudo por várias óticas.
      O filme é ótimo e tem inúmeras mensagem!
      dentre todas, escolhi esta que tratei no artigo, pois sempre procuro os sofismas.
      mas nada contra filme bom!

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