“EU NÃO VOU ABRIR MÃO POR ELE”.

O problema está no “se”.

“Se ele for um cara legal comigo, daí sim, poderei ser legal com ele também”.

“Se ela fizer o que eu quero, daí sim, darei a ela o que ela tanto quer”.

Desde bem cedo aprendemos com nossos pais e mães que “se” tirarmos boas notas na escola, poderemos ganhar o presente, a viagem ou o sorvete.

Aprendemos que “se” eu for bem-educado, eu ganho. Hoje alguns ensinam que “se” comer tudo, pode brincar no Ipad. [Aliás, corrijo, acho que já mudou o paradigma: tenho visto casos bizarros onde os filhos pequenos é que dizem “se me der o Ipad, daí sim, eu comerei…”]

Desde pequeno esta condicional nos formatou no modelo meritocrático do receber por merecimento. Alguns pais que por questões ideológicas são contra a meritocracia, incoerentemente a aplicam na educação dos filhos.

A religião também tem formatado pessoas que vivem o drama da meritocracia da salvação. O kerigma do Novo Testamento é a “salvação” gratuita para quem simplesmente confessar que Jesus é Senhor (Romanos 10:13). Contudo, as religiões cristãs tradicionalmente enfiaram a meritocracia dentro deste “negócio” e a maioria da cristandade ocidental acredita que “salvação” é por merecimento: “se” eu for uma boa pessoa, serei salvo! A meritocracia está impregnada no cristianismo. Assim, a alma de muitos está cheia de heresias, como estas:

“Se” você der dinheiro “pra Deus”, Ele te abençoará.

“Se” você for piedoso, Deus terá misericórdia de você.

“Se” algo de ruim está acontecendo a mim, e porque Deus não me ama? (Neste caso aqui está a clássica confusão intrometida: “se” eu amo, eu faço o que o outro quer).

Sendo bem provocativo agora:

Existem linhas do feminismo contemporâneo que ensina que uma mulher não deve abrir mão de algo de valor em favor de um homem, pois os opressores já são suficientemente privilegiados.

Por outro lado, o machismo é um elemento ainda muito presente na sociedade e eu conheço homens que não estão dispostos a abrir mão de suas vontades.

Papo loooongo….

O tema “abrir mão” tem se cristalizado como um discurso político, dentro ou fora da religião. O merecimento do amor de Deus está amalgamado ao merecimento do amor dos pais ou do outro.

O “se” é a condicional que nos condiciona a deixar o altruísmo de lado.

Está bem claro onde eu quero chegar! Caso a relação esteja baseada em  amor verdadeiro, não deve haver o “se”. Não há espaço para meritocracia nas relações, sejam elas amorosas, conjugais, sociais, políticas ou fraternais. Está claro que Jesus nos ensina a dar sem receber? Está claro que somos chamados a andar uma segunda milha quando alguém pede pra gente caminhar com ela? Ou a dar também a camisa, quando nos pedem um casaco? (Mateus 5:38-42 ).

O título do artigo poderia ter sido: “Eu não vou abrir mão por ela”, daria na mesma? Seria mais ou menos provocativo?

Quer abrir mão incondicionalmente? Eu quero, só não consigo… mas sei que seria esta a expressão genuína do amor, que apesar de fora de moda, é o que gostaríamos que por nós fizessem. Deus faz.

Não acabou, quero contar uma última estorinha:

“Um homem muito pobre vivia com sua esposa, cujo o cabelo era muito longo. Um dia, a esposa pediu para o marido lhe comprar um pente, para que seus cabelos longos pudessem continuar a crescer e ser bem cuidados. O homem sentiu tamanha tristeza e disse: “Não tenho dinheiro nem para consertar a correia do meu relógio que acabou de quebrar”.
A esposa não insistiu…

No caminho para o trabalho, o marido passou por uma loja, vendeu seu relógio danificado por um preço irrisório e foi comprar um pente para sua esposa.

Ele voltou para casa à noite com um pente na mão, pronto para dar a sua esposa, mas ficou surpreso ao vê-la com os cabelos curtos.

A esposa cortou o cabelo e o vendeu para comprar um novo relógio para o marido. Nesse momento, as lágrimas fluíram dos olhos de ambos, pela reciprocidade de seu amor”.

O amor é gerado quando a felicidade da outra pessoa é mais importante do que a sua.

Quão grande será o mundo se nós, como casais, amigos, irmãos, colegas de trabalho e vizinhos superarmos o “se” com um amor sincero.

Que esse amor comece dentro da nossa casa. Abre a mão por ele. Que o “se” não seja uma barreira. (I Coríntios 13:1-13)

 

Luciano Maia

 

 

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website