Minha cozinha, minha vida

Por Simone Maia

Quem me conhece sabe que estou vivendo nova fase de vida. Hoje está ótimo para ilustrar: tarde de 7 de setembro, feriado, sozinha em casa. A filha estudando lááááááá longe, o filho passando o dia estudando para uma prova na casa de um amigo onde dormiu e o marido saiu para estudar também. Nada de amigos por hoje. Ou seja, sobrei. Mas pelo menos desta vez eu estou feliz.

Bem, como o tempo está me sobrando, eu descobri que com mais tempo eu consigo até pensar melhor.

Aí, estava eu lavando a louça do almoço que eu preparei para mim e para o Lu em menos de 10 minutos (é, eu sou ninja na cozinha!) e me veio à mente um comparativo interessante de como minha relação com a gastronomia, minha geladeira, minha cozinha reflete minha relação com a vida.

Funciona mais ou menos assim: quando estou em casa e tenho que preparar alguma coisa para comer, eu abro a geladeira, depois o armário de comida, analiso o que tenho disponível em ambos e a partir daí eu invento o que eu vou fazer. Raramente percorro o caminho inverso de pensar em algo para comer para depois sair com uma lista a fim de comprar os ingredientes – geralmente só faço isso para uma ocasião específica ou mediante pedidos especiais. No dia a dia, inclusive em situações especiais do dia a dia, primeiro eu vejo o que eu tenho e depois eu penso no que posso criar de bem gostoso com o que eu tenho à disposição na minha cozinha.

Na vida, sou mais ou menos assim também, como sou com a minha cozinha. Procuro fazer coisas gostosas a partir do que tenho disponível. Raramente fico idealizando fazer algo cujos ingredientes não tenho à minha disposição.

O primeiro exemplo que me foi marcante é data do ano em que fui morar nos Estados Unidos como intercambista. Eu saí de uma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, onde eu era uma mocinha completamente independente com uma vida social bem agitada, e fui morar no interior da Flórida, onde não havia sequer meio de transporte que pudesse me levar e trazer para qualquer lugar. Em pleno tédio, comecei a transformar as coisas rotineiras em diversão. E tudo passou a ser interessante: ir ao supermercado (antes eu odiava ir ao supermercado), andar de bicicleta, visitar a host mom no trabalho (e ela trabalhava no hospital, véi!?), montar quebra-cabeças, bordar (bordar?), malhar (malhar? Como é que isto pôde um dia ser divertido?)… Enfim, consegui viver feliz com o que estava ao meu alcance. E fui de fato muito feliz durante o meu ano de intercâmbio.
Ao longo dos anos, tenho passado por altos e baixos. Altos bem altos e baixos bem baixos. Tirar proveito dos itens à minha disposição nas alturas foi bem fácil. Mas enxergar a felicidade disponível no baixo foi um desafio incrível. Nos períodos de carestia na vida adulta, descobri que o dom de criar a partir do que há disponível é na verdade uma característica infantil que se perde pouco a pouco na medida em que o tempo passa para nós.

Mas para a minha felicidade, ainda hoje consigo, na maioria das vezes, viver com o que tenho.

Não seria certo eu dizer que simplesmente me contento com o que tenho. Isso tem parentesco com a mediocridade e eu tenho um problema com ela. O que eu consigo, na maioria das vezes, é encontrar felicidade no momento presente, mesmo quando estou a caminho de algo a ser conquistado. Uma vez me disseram que eu sou engraçada porque o melhor é sempre aquilo que eu tenho! Hahaha! Mas é óbvio! Se isso é o que eu tenho, isso é o melhor. Sobrevivência pura. E para sobreviver, cada um encontra seus meios.

Na verdade, me considero uma pessoa muito sonhadora. Mas sou uma sonhadora realista (isso existe?) e sempre estabeleço novas metas a partir dos estágios que alcanço. Sempre fui assim. Sonho e persigo. Alcanço e planejo de novo. Mas, na maioria das vezes, consigo curtir o caminhar, a construção, a conquista. Quando falho em reconhecer que o que tenho hoje deve me bastar, luto com a orientação de Jesus naquele verso bíblico que nos orienta assim: “não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa?” (Mateus 6.25). Haja fé!

Não quero aqui dizer que eu sou muito legal ou especial porque na maior parte do tempo eu tenho esta habilidade. Quero apenas compartilhar algo que considero ser uma estratégia para curtir a vida, uma espécie de pílula do contentamento. Por que eu vou ficar planejando comer filé com fritas quando só tem alface e peito de frango na minha geladeira? Vou procurar uma receita de peito de frango e curtir com alface, ué!
Ah! Acabei de me lembrar como aprendi a fazer macarrão ao alho e óleo: estudante universitária, república, 10:30 da noite, aproximadamente, chego da biblioteca morrendo de fome e com zero de dinheiro. Abro a geladeira, encontro alho. Abro o armário encontro um pacote de macarrão. Mais NADA! Penso: já ouvi falar num tal de “macarrão ao alho e óleo”. Como óleo sempre tem mesmo, o resultado foi ótimo! Voilà!

E assim tem sido: com filhos pequenos, abracinhos que me fazem sorrir. Com filhos grandes, colo livre para os livros. Com o marido, beijos. Sem beijos, com expectativa. Com sol, churrasco no quintal. Choveu? Barulhinho de água na janela da sala de TV! Com dinheiro, restaurante. Sem dinheiro, o aconchego da minha cozinha. Uhmm! Vamos ver o que temos aqui na geladeira…

Brasília, 07 de setembro de 2011.

 

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Agora dois filmes publicitários que satirizam o fato de a maioria dos homens não serem tão talentosos na cozinha…

 

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16 comentários em “Minha cozinha, minha vida

  1. Mais é exatamente isso o interessante da vida! vc conseguir viver com o mais simples possivel! Acredito q em todos os lugares com todas as pessoas é assim. nem sempre temos tudo do bom, logo temos q ser criativos e adaptar.. e todos sabemos bem q brasileiro eh especialista nisso!! eu trabalho com pessoas.. e sempre tenho q criar novos grupos.. raramente tenho os perfis q seria o ideal.. mais com algumas combinaçoes fika bom =D!!

    Deus nos fez diferentes e pensantes para nos adaptarmos e precisarmos um do outro!!

    qto a parte da cozinha.. raramente cozinho.. (por questoes de animo.. acordo meio tarde ja q trabalho a noite.. logo acordo pouco disposto a cozinhar).. ‘mas qdo faço, utilizo uma sequencia quase igual, a diferença eh q vejo qto tenho emtrocados na carteira tbm. rsss..

  2. Muito bom esse texto Simone maia… Essa forma de encararmos a vida, pra mim, é um ótimo remédio para as Crises existenciais da humanidade.

    Felicidade não está no que possuímos, mas em como possuímos as coisas…

    A forma como reagimos com os infortúnios ou as bençãos da vida, nos leva a ser quem somos, alegres ou triste, avarentos ou generosos, depressivos ou “auto astrais”…

    Mungu Akubariki!

  3. muito bom o texto, de muito pé no chão e sensibildiade. Me fez lembrar os anos de pânico que sofri e depois com a dificuldade de estruturar minha vida profissional e afetiva (nas relações familiares e com amigos)……..eu não tinha nada do que eu queria, mas Deus me mostrou justamente no cotidiano que valorizar as coisas simples, são justamente o que nos mantém firmes e mais fortes…aprendi e aprendo a descartar o excesso, a ilusão e esta felicidade que as pessoas buscam eternamente sem nunca encontrar.

    abraços fraternos, Letícia.

  4. Oi Lú e Si,

    Mesmo que ela não escrevesse isso eu já tinha sacado a grandiosidade da Si. Amiga, mãe, esposa MARAVILHOSA que todos querem por perto!
    Amooooo muito vocês.
    Beijos muito saudosos.

  5. Grande Lu e sua pequena Grande Mulher!!!!
    Se mais pessoas pensassem e agissem assim, com certeza seríamos bem mais felizes…
    Um beijo do amigo,

    Sérgio

  6. Simone… lugar de gente bem humorada é na cozinha, a alquimia da alegria pode ser preparada com as mãos, ela nos salva da insanidade e nos resgata o poder da magia ‘Rubem Alves’. Um sorriso da alma para voçê e com você .. e se puder um jantar com nossa turma, feito – Por voçê.. rsrs. bjs

  7. Nossa, Si: se abriu todinha…rs

    Talvez a(não estou lembrando de outra) característica que mais admiro em você e que tento aprender a cada dia (não estou falando de cozinha, você sabe…hehe).

    beijo. Tem que escrever mais (viu Luciano?). É muito bom ler o seu texto.

    • hehehe!!!! Obrigada, Rê! É que ainda não tinha visto seu comentário querido. Tenho escrito um pouquinho nesses dias de mudança e reflexão.
      Quem sabe fico com vontade de compartilhar mais alguma coisinha, né?
      Beijos pra você!
      Com carinho, Si

  8. Esse texto traz uma reflexão bacana mesmo.

    Vamos conversar sobre ele quando nos encontrarmos…

    Fiquem na PAZ,

    Abs e bjs

  9. Gostei muito também.Deus a conserve assim. Ela devia dar consultoria sobre este assunto. Já tem a primeira da fila.
    Bjs
    Gi

  10. É meu amigo, está é a sua mulher! Bela e Rara! Ao ler, fiquei imaginando os gestos e expressões facias que lhe compõem o jeitão divertido dela.

    🙂

    Grande abraço
    Alex

  11. Que lindo!!! Adoro a lucidez dessa minha amiga tão querida. Enquanto lia, parecia que estava conversando comigo. Aqueles papos ótimos que temos e que as vezes são tão curtinhos e que nos fazem tão felizes. Só quem já teve a oportunidade de estar naquela cozinha pode entender. Amo vcs demais. Beijos.

    • Gostoso ler os comentários dos meus amigos amados que conhecem a minha cozinha, e que ME conhecem na cozinha.
      Venham sempre! Afinal de contas, está sobrando tempo, cadeira e carinho por aqui!
      Beijos aos meus queridos amigos.
      Si

  12. Não precisava falar que o texto era dela, pois ele é a cara da Si. Parabéns e continue com juízo pois vc tem uma mulher que é uma benção.
    André Nunes

  13. Simone,
    não a conheço, mas quero agradecer pelo texto, é bom sermos lembrados de viver contentes em qualquer circunstância!
    Abraços e que Deus a abençoe,
    Patricia

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