NO FIM DESTE FILME A GENTE MORRE…

Passear  por São Paulo é uma experiência que mexe com vários sentidos e com sentimentos diversos. Entrar na Pinacoteca e saber que a instituição possui mais de cem anos realizando exposições é incrível. Perto da Pinacoteca tem um prédio alto,  pomposo, pé direito duplo, porém,  abandonado e decrépito. É a Companhia Brasileira de Tecidos. Deve ter sido palco de grandes festas e acolhido gargalhadas. Empreendedores se orgulharam daquilo num tempo remoto. Certamente gerou muitos empregos e impostos que serviram para o Estado cumprir seu papel social. Nada sobrou. Faliu em 1991. O Centro de São Paulo é cheio de prédios antigos abandonados que foram pomposos em seu tempo.

Tempos atrás escrevi um artigo (neste link aqui), onde falei de como a vida passa e às vezes os protagonistas descem do palco deixando nenhum legado. Isto é assustador, pois escancara de forma muito contundente a fugacidade da vida,  assim como cantam poetas e salmistas.

Passo pelas ruas de São Paulo e vejo em cada uma delas o nome de uma pessoa. Ninguém mais sabe quem foram aquelas pessoas… Protagonistas em seu tempo a tal ponto de serem homenageados com nome em ruas ou praças,  mas hoje sequer os moradores daquela rua sabem quem foi e o que fez de relevante o homenageado. São precisamente 48.623 ruas com nome de gente… (Santo Google!). Excetuando-se as principais vias, o tempo passou e o significado daquele nome também.

Li sobre uma família que era dona de um império de tecidos no Bairro da Moóca (tecidos também). Uma das filhas desta aristocracia fazendária inclusive foi primeira dama da cidade na década de 30 do século passado,  além de uma grande filantropa das artes. Quem sabe disto? O nome do marido batizou uma rua paulistana. Morreram sem deixar filhos. Muitos são os protagonistas  que não deixam legado. Protagonistas de uma história inacabada. Neste caso, estes deixaram um belo museu. A vida deste casal foi de cinema, depois pesquisem. Mas, só pra lembrar… no fim deste filme a gente morre… Assim como foi com eles.

Na companhia familiar em que atualmente trabalho tenho provocado a reflexão sobre o tema sucessão. Como e quem gerirá o que hoje está sendo penosamente construído? Para alguns esta reflexão não faz sentido, mas muitas pessoas não gostariam que seus nomes e suas histórias fossem simplesmente apagados da face da terra e que seu trabalho fosse vão: Como ser lembrado? Para que ser lembrado? Mas, só pra lembrar… no fim deste filme a gente morre… E empresas derretem.

Homens construíam grandes monumentos para que a memória deles fossem forçosamente registrada. Assim, faraós construíram pirâmides (mas os egípcios se extinguiram e quem mora naquela região da África hoje é outro povo). Os gregos construíram panteões… Mas eles também sucumbiram e hoje restam apenas ruínas de um ex-império filosófico que comandou a economia da região milênios atrás. Assim foi com inúmeros outros impérios econômicos no transcorrer da história. Assim foi com inúmeras famílias brasileiras e paulistanas que comandaram o capitalismo tupiniquim.

Qual o legado temos construído para as gerações futuras?

Eu gostaria muito de ter lido algo que meu pai ou minha mãe tivesse escrito. Um poema, um artigo,  uma reflexão existencial ou mesmo uma receita secreta de bolo.  Gostaria muito de ter deitado à sombra de alguma árvore plantada por meu pai ou minha mãe em qualquer lugar, qualquer praça. Mas se o fizerem, desconheço. Creio que o legado que deles herdei,  além de um sobrenome desconhecido,  foi apenas meu DNA e o sonho de não repetir a história.

Ao ler o pentateuco impressiono-me com o legado deixado por homens simples. Impressiono-me que a jornada iniciada pela fé por Abraão foi continuada por seu filho Isaque. Impressiona-me que Jacó,  filho de Isaque permaneceu errante sobrevivendo da esperança plantada pelo avô: que daquela família todas as demais famílias da terra seriam abençoadas.

Impressiona-me ver Jacó, num golpe do destino, mudar-se para o Egito e testemunhar seu filho comandar a “bagaça toda”.  Impressiona-me ver um assassino e fugitivo,  chamado Moisés, capitanear o êxodo dos refugiados hebreus para um país distante.

Mais que tudo isto,  impressiona-me como que este povo pequeno,  fraco,  fugitivo, que nunca foi potência bélica ou econômica, que sempre foi escravizado – várias vezes, moradores de uma região semi-árida ou desértica… Como esse povo sobreviveu? Como preservaram sua religião,  costumes e língua? Nunca foram gênios de nada… Não inventaram a matemática ou a filosofia, nem deram qualquer contribuição relevante para a arquitetura. Ainda assim eles influenciaram toda cultura mundial (especialmente a ocidental) por meio de uma matriz ética (o Antigo e o Novo Testamentos – livros que contam as histórias deles).

A única resposta que posso considerar satisfatória é que o legado deles não é humano, mas espiritual. Herança espiritual é coisa séria. Costumo dizer para meus filhos que desejo ardentemente deixar para eles ao menos o meu legado espiritual. Tenho me esforçado para deixar “coisas” para eles: publiquei um livro com lições de vida que aprendi de Deus,  plantei várias árvores  onde poderão descansar em suas sombras, busquei as melhores escolas que minha renda pudesse bancar. Contudo, se nada mais sobrar,  que fique ao menos a herança espiritual: o legado daquele que sempre tentou fazer o certo,  mesmo com a alma rugindo pelo caminho mais curto. Que ao menos  fiquem as orações pelas madrugadas em favor do caminho deles. Que fiquem as escolhas feitas apenas para servir como um exemplo vivo, e não teórico.

O melhor que podemos deixar para esta geração ou para as futuras é nosso legado espiritual: sermos protagonistas da história de tal maneira que não deixemos apenas coisas, mas deixemos exemplos consistentes de vida,  um legado espiritual,  o qual,  no fim das contas,  é o único legado perpétuo, pois, só pra lembrar… no fim deste filme a gente morre…

De tudo que eu construí até hoje,  a única coisa que tenho certeza que durará eternamente são as vidas para quem ensinei o Evangelho, ensinei da mansidão de Cristo, e que receberam a salvação pela fé – por isso foram impactadas e alcançaram mais qualidade de vida neste mundo e uma vida eterna no outro. Só pra lembrar… no fim deste filme a gente morre…

(detalhe: só de ter certeza da vida eterna,  já vive-se mais em paz neste mundo doido – quer legado melhor?)

2 comentários em “NO FIM DESTE FILME A GENTE MORRE…

  1. Um relato muito bonito, muito importante, mais podemos deixar para nossos filhos o que herdamos de nossos pais, nossos antepassados coisa essa herdada chamada RESPEITO, temos que respeitar todos um dos exemplos esquecidos é o respeito a bandeira brasileira, aos mais idosos, estamos acabando com o nosso futuro de idosos, deixando de ensinar aos jovens de hoje o futuro respeito do amanhã.

    Azeitonna

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website