O FANTASMA DA HIPER-REALIDADE

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O fantasma da hiper-realidade

Num convite interior para a reflexão sobre as relações humanas e os seus conflitos de comunicação pude crer que o pano de fundo das discórdias está de algum modo relacionado a idolatria. Quase sempre nos submetemos a servir a alguém que temos a ilusão de um Ser maior. Um chefe, uma figura pública, os nossos pais, o irmão mais velho, um professor, são alguns dos exemplos. Por outro lado, para cada um desses há debaixo muitos indivíduos, os submissos.

Nos exemplos citados as relações se dão por um indivíduo que demanda e os outros submissos o servem ou seguem suas ordens. Se quem solicita um favor ou uma entrega é o chefe, tenho que correr para fazer, caso contrário sofrerei autopunições e carregarei a sensação de estar devendo algo ao soberano. Se é o nosso Pai quem solicita, devemos fazer rápido, afinal quem não obedece aos pais torna-se um pecador desobediente. Se é um professor, pior ainda. Cumpre-nos acreditar que seremos condenados a burrice eterna se não praticarmos os seus ensinamentos. E por aí vai, nossa dívida com os soberanos só aumenta. É incessante.

Oh! Devendo ao Soberano. Será mesmo que alguém carrega um crachá com grandes responsabilidades é mesmo maior que Eu? Não sei. Será mesmo que os ensinamentos de nossos pais são tão cruciais que outros não possam nos passar? Bom, não sei também. Mas sei que todo mundo acha que o Chefe é maior que todo mundo e o Pai também.

É como se o “soberano” fosse um deus, figurando, portanto, uma hiper-realidade. Pois embora saibamos que qualquer um na terra está há anos luz de ser comparado a Deus, a realidade é que por obediência servimos aos soberanos e procuramos atendê-los aos seus mandamentos.

Mandamento! O ato de mandar. Quando um manda o outro obedece, caso contrário, castigo. É assim também no mundo corporativo, na sala de aula, nas reações de pais e filhos. Realidade cruel.

Cruel? Sim. Quem obedece, cumpre. Quem é feliz doa. Cumprir porque tem de cumprir é doloroso.

Os fantasmas que ocupam nossa imaginação refletem nas nossas relações interpessoais, fazem com que rotulemos uns aos outros de modo injusto, pois soberanos e submissos podem ser papeis que assumimos em cada uma das fases de nossas vidas. Nem sempre é confortável transitar numa ou noutra posição.

A sociedade de certa maneira nos impõe a necessidade de assumir papeis que, às vezes, nem queremos. Um professor tem de imprimir uma nota para o aluno na avaliação, o pai tem que castigar o filho desobediente, um chefe tem de advertir o seu submisso por um atraso na chegada ao trabalho. Não cessa.

Ah! Se um dia eu pudesse resolver essa difícil situação, talvez criasse uma nova posição com o fim de ofuscar essa Hiper-Realidade, os Soberanos e os Submissos, que fomos capazes de criar. Criaria um novo rótulo para se somar aos existentes, o Ser Equilibrista. Esse ser moraria em cima de um grande muro, desse lugar teria a grande visão, aquela que enxerga os corações e as almas dois lados, as duas faces. E assim, talvez, pudesse ser realmente poderoso.

Enquanto os rótulos existirem estaremos eternamente presos em liberdade. Pensar de um ponto de vista diferente é preciso.

 

Viviane Hérica

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