O HOMEM E SEU AMIGO

Costa da Vila de Manarola

Havia certo homem que nunca acreditara em religião. Não era um problema específico com Deus, mas com tudo que ele não pudesse desfrutar com os cinco sentidos. Para ele Deus, Jesus, Buda, espíritos, anjos, orações, rezas, trabalhos espirituais e tudo o mais, eram perda de tempo, já que não surtiriam efeito algum, nem na vida, muito menos após a morte.

Esse homem levou uma vida de retidão moral e, apesar de não caçoar abertamente de quem abraçasse alguma fé (era um homem cortês e polido), em seu interior nutria um sentimento de desprezo por eles. Julgava que eram pessoas fracas, e facilmente manipuladas, para prover dinheiro e poder aos líderes religiosos.

Apesar de cultivar poucos amigos, aqueles que ele tinha eram fiéis e havia um, em especial, muito chegado, que vinha dos tempos de criança. Cresceram juntos, trabalharam juntos, foram testemunhas de casamento um do outro, celebraram o nascimento dos filhos, enfim, construíram um relacionamento sólido e afetuoso.

Após a aposentadoria seu amigo mudou-se para Vila de Manarola, um bucólico vilarejo na Itália, terra de seus avós. O homem ficou verdadeiramente alegre pela mudança do amigo, contudo não pode evitar certa melancolia, pois a distância iria impossibilitar os fins de tarde animados, regados por um bom vinho e muita prosa.

Mesmo longe mantinham contato até que, certo dia, em uma conversa pelo Skype o amigo lhe diz que havia tido um encontro com Jesus que mudara sua vida. Essa notícia lhe causou um transtorno tão grande que o homem foi a Itália visitar o amigo, no intuito de trazê-lo de volta à razão. Foi recebido com festa e o reencontro foi prazeroso para ambos. Ao ser questionado sobre a conversão o amigo disse que não tinha nada a explicar, além do fato de ter encontrado o Jesus vivo e ter decidido segui-lo até a eternidade.

Aquela notícia foi arrasadora para o homem. Pessoas que ele, em seu íntimo, considerava inferior, tudo bem se deixar levar por essa balela. Mas um homem como aquele, inteligente, experiente, vivido, cair nesse conto, era devastador. Entretanto ele, acima de tudo, era honesto consigo mesmo e fiel às suas amizades e, a pedido do amigo, se empenhou em ler a história de Jesus, contada pelos evangelistas.

O homem, meticuloso por natureza leu e releu os relatos dos evangelhos. A cada nova leitura as palavras de Jesus lhe faziam mais e mais sentido. Seus ensinamentos, sua forma de viver e relacionar com as pessoas. Seu empenho com a verdade e a justiça. Sua coragem ao enfrentar as adversidades. Tudo isso o fascinou. Mas, ele não era apenas meticuloso, também era um homem prático. Foi visitar algumas congregações, fez colegas, e a empreitada durou cerca de um ano de visitas a cultos, leituras e releituras e algumas conversas com Jesus (essas o fizeram pensar que estava louco). Ao final foi novamente a Manarola, visitar seu amigo.

– Caro, fiz como lhe havia lhe prometido. Li e reli os evangelhos. Li também os demais livros do Novo Testamento. Fiquei realmente surpreso com Jesus, sua humanidade temperada com uma sabedoria digamos; divina. Sua vida simples. Seu empenho em viver de acordo com o que acreditava. Seu ímpeto em defender a justiça, mesmo custando caro e, muitas vezes, manchando sua reputação. Posso dizer uma coisa, se ele realmente existiu ele é, de fato, o filho de Deus.

– Não lhe falei amigo! Sabia que isso iria acontecer. Eu te conheço há anos.

– Então já sabe que fui além. Visitei igrejas, conheci pessoas, me aproximei de líderes e o que vi foi a perfeita descrição de Jesus sobre os hipócritas. Homens ricos de espírito, que não choram pelo próximo, ávidos por uma briga, injustos, sem misericórdia, com coração impuro, dominadores dos fracos. Pessoas extremamente rígidas ou extremamente permissivas. Cobiçam de tudo, dinheiro, sucesso, prazeres!

– Sei. – disse o amigo com um sorriso.

– E pior. Fui investigar. Muitos dos milagres que acontecem são mentiras deslavadas! Tudo encenação!

– Acredito amigo. Mas quero lhe dar um conselho. Posso?

– É claro!

– Nunca deixe que essas pessoas levem embora o Jesus que você encontrou.

———-

E por falar em velhinhos…

Share

2 comentários em “O HOMEM E SEU AMIGO

  1. Que texto incrível!
    Vemos tantas pessoas desistindo de Jesus por fofocas e picuinhas que infelizmente acontecem na casa do Senhor, e essa ultima frase simplesmente me tocou, e me fez refletir.

    “Nunca deixe que essas pessoas levem embora o Jesus que você encontrou”

    • Olá Vanessa,
      Pois é! E muitas vezes não desistimos de Jesus, mas desistimos da igreja, desistimos das pessoas.
      E quando vamos notar estamos endurecidos, só vendo erros, e perdemos o que há de mais sublime no Evangelho: ele é, e sempre será, uma boa nova de reconciliação com o Pai. Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website