O PAI NOSSO DE CADA DIA, QUE EU NÃO TIVE.

O pai nosso de cada dia, que eu não tive

Publicado em 21 de dezembro de 2016por Joberson

 

 

Por Joberson Lopes

Fui criado sem pai, mas sabendo que ele existia e estava apenas um pouco distante. Tive um padrasto, uma pessoa presente dentro de casa, mas distante de ser um pai, apesar de ter gostado dele, sentido a dor da sua morte, ele nunca conseguiu ser um pai para mim. Talvez ele fosse muito novo para essa função ou nunca soube como assumir uma família já pronta.

Tive um tio que foi em muitos momentos, rude, distante, ignorante, mas que de certa forma, hoje sou uma pessoa formada com muito do que aprendi com ele. Vejo que segui muitos dos exemplos de vida que ele vivia e fazia. Sei que ele nunca se colocou como meu pai (pelo menos nunca me falou isso) mas posso ver que aprendi com ele coisas que era para ter aprendido com um pai biológico.

Esse tio, é irmão da minha mãe. Sempre tive muita admiração e respeito por ele e ainda tenho. Nunca concordei com a didática dele, mas ele estava reproduzindo o que aprendeu com o velho Bigode, meu avô e pai dele.

Meu pai viveu comigo até os 3 anos, mas eu não tenho nenhuma lembrança dessa época (gostaria de poder lembrar) mas tenho lembranças durante minha adolescência, ele chegando em nossa casa, embriagado, querendo reconciliação com minha mãe, mas ela já estava casada com meu padrasto. Sei que meu pai biológico sempre me amou, e não só a mim, mas também a meus irmãos. Mas também sei que há momentos em nossas vidas que agimos com a cabeça fora do lugar e tomamos decisões erradíssimas, só não sabemos as consequências das nossas escolhas erradas na vida dos nossos filhos e familiares, mas enfim, isso pode acontecer.

Cresci sem a figura de um pai presente, essa forma masculina, me ensinado como ser homem, como agir com as mulheres, como tratar uma moça, como casar, como criar filhos, como cuidar da casa e coisas dessa natureza.

Eu aprendi a escovar cabelo de mulher. Minha mãe tinha um salão de beleza. Aprendi a cozinhar, a manter a casa limpa, a lavar e passar roupa, entre outras coisas, pois fui criado em um mundo mais feminino, das minhas amadas mãe e irmã. Não foi ruim isso, pois acredito que ficamos muito unidos e até hoje somos. Aprendi muitas coisas que hoje me ajuda no meu casamento, na minha vida como pai, mas também sei que deixei de aprender muitas coisas que poderiam me fazer um marido melhor, um melhor pai hoje.

Eu não me tornei homossexual por ter sido criado nesse mundo feminino, mas creio que muitos meninos que crescerem com experiências parecidas, em um mundo rodeados por meninas, tenham se tornado homossexuais devido à falta dessa figura masculina paterna dentro de casa. Isso e apenas minha opinião.

Apesar de não ter nenhum déficit na minha masculinidade, por não ter tido pai presente, tive um déficit em habilidades normalmente masculinas. Eu sempre achava estranho porque muitos amigos meus tinhas ferramentas dentro de casa, gostavam de falar sobre ferramentas, sabiam arrumar uma torneira quebrada, trocar um cano, trocar uma lâmpada, coisas desse tipo e eu nem tinha ferramenta, não tinha interesse em falar sobre e não me interessava em aprender nada desse tipo de assunto. E depois que casei percebi que não gostava de consertar as coisas dentro de casa quando quebravam. Azar da minha esposa.

Mas como sou uma pessoa que reflete sobre a vida, fiquei buscando respostas porque eu não tinha ferramentas como todos os homens. Porque eu não me enquadrava no mesmo padrão dos homens de casa? Homens que sabiam e gostavam de fazer coisas mais do universo masculino? Porque eu não?

Apesar de não ter nenhum problema na minha vida sexual, eu sabia que algo estava faltando em mim como menino do sexo masculino. Todos que eu conhecia gostava de ter ferramentas, gostavam de estar em oficinas, de consertar coisas, mas eu não. Eu gostava de cozinha, aprendi a bordar, achava muito bonito a profissão de costureira e tudo isso era coisas de mulher. Mas nas décadas de 1980/90 eu não via muito problema em gostar de coisas de mulher e não me sentia diminuído em relação aos outros garotos da minha idade. Para mim era apenas uma questão de gosto.

Fosse nos dias de hoje, acho que eu poderia ter sido caracterizado facilmente como gay, mesmo sem sê-lo, apenas por estar fazendo o que eu fazia. Eu cresci, me casei, me tornei pai de lindos filhos, estudei mecânica de automóveis, me tornei mecânico, tenho ferramentas em casa, aprendi a consertar coisas dentro e fora de casa e estou amando muito ser pai.

Ser pai e uma tarefa difícil, precisa ter paciência, persistência e entendimento racional da missão que foi dada aos do sexo masculino, de ser pai e líder de um lar. Hoje me sinto Deus na vida dos meus filhos, não por poder mandar neles, mas por poder morrer por eles, se preciso for.

Ser pai também me trouxe mais para perto da Paternidade Celestial. Agora faz mais sentido para mim, quando leio “Pai nosso que estas no Céu”; pois eu sei que tenho alguém no Céu olhando para mim, sei que me ama, que cuida de mim, que pode acordar de madrugada para me dar comida, que levanta de madrugada para ver se eu estou coberto e que pôde morrer por mim, para que eu pudesse ter vida.

Joberson Lopes, 21/12/2016

(Este texto é parte do livro que estou escrevendo sobre paternidade).

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