Para que serve uma mola?

mola

Por Márcio Marques

Esses dias recebi a ligação de um amigo, músico de excelente quilate, manifestando uma maravilhosa vontade de estar perto daqueles que precisam. Segundo ele, devemos nos aproximar das pessoas complicadas, aquelas que enxergam o mundo de maneira muito particular, e que por isso são difíceis de lidar, para que com elas possamos aprender e ensinar. Daí pensei nas molas…

Segundo consta no dicionário, mola é uma peça metálica que imprime movimento ou que restitui alguma peça ao seu primitivo estado. É, portanto, um dispositivo auxiliar, mas que cumpre um importante papel, ao manter a estabilidade de determinada estrutura, por meio da acomodação de impactos ou de movimento.

Embora seja construída para desempenhar a finalidade acima descrita, não se pode deixar uma mola tensionada por muito tempo, sob pena de deformar sua estrutura, acabando por eliminar sua funcionalidade. Doutro lado, também não faz sentido a mola permanecer distensionada (descomprimida), deixando de cumprir a finalidade para a qual fora criada. Mola e molejo se faz com movimento! Tensão e distensão.

É curioso percebermos que uma mola, feita de liga metálica, é extremamente rígida e resistente em qualquer ponto de sua estrutura. Qualquer pedaço da mola é dureza pura! Mas, para o nosso aprendizado, a mola, como conjunto, é flexível. Suporta a deformidade mas retoma sua forma original.

Bom, se assim fossemos nós, seríamos impenetráveis em nossos princípios – fé, amor, caridade, ética, esperança, etc. – conquanto adaptáveis aos impactos da vida, sem nos fragmentar.

Enquanto falava com meu amigo, tive a vontade de dizer para ele que precisamos alimentar, mas também ser alimentados! Somos molas, aptas a auxiliar outras estruturas a suportarem impactos, mas não podemos permanecer, o tempo todo, sujeitos à pressão. Caso deixemos de observar esse limite, também nós nos deformaremos.

Aí conversamos mais um pouco e encerramos a ligação. Mas a ideia ficou muito viva em minha cabeça, exsurgindo uma série de reflexões, até que cheguei à mola mestra: Jesus!

Aquele que se declara Cristão deve, naturalmente, buscar o exemplo deixado por Cristo para conduzir sua vida. Cristãos buscam seu referencial em Cristo. E Ele, essa mola que suportou todo o peso do mundo, sem deformar, nos ensinou algumas coisas sobre o movimento de molejar.

Costumo dizer que Jesus não era um ser linear. Lendo o Novo Testamento, nós nos deparamos com inúmeros exemplos da ‘não linearidade’ da pessoa de Jesus. Ora homem de sangue quente, eloquente nas palavras e atitudes, colocando para longe de si as ameaças ao Plano de Deus. Ora homem de serenidade inigualável, de silêncio constrangedor e educador, suportando a inquietação com resignação. Não era mesmo um ser linear.

Mas existe um ponto convergente, e portanto linear, em toda a história do Filho do Homem: o amor. Absolutamente tudo o que fez, e de todas as suas manifestações, podemos extrair um amor sublime. Nisso ele era previsível. Todas as suas respostas eram pautadas no amor, com um poder que há mais de dois mil anos não vemos igual!

E Jesus nos desafia a molejar com sabedoria. O seu convite é muito claro, no sentido de que devemos ser mola para o conforto das agruras dos que vivem neste mundo. Mas, assim como ele, devemos obedecer o movimento de tensão e distensão. Ele, verdadeira fonte de poder espiritual, retirava-se sozinho para recuperar sua condição original de suportar a carga. Nós, por outro lado, devemos buscar essa reorganização na figura de Jesus Cristo e, também, em comunidade. Devemos buscar a companhia de pessoas leves, serenas e espiritualizadas para nos alimentar e, alimentados, ir ao encontro daqueles que precisam.

É um movimento necessário, vez que nós não somos fontes inesgotável de recurso, nem material nem espiritual. Por isso, precisamos nos alimentar da fonte primária – Deus – e das fontes complementares, os irmãos. Nessa vida, tenho visto que não se moleja sozinho!

Mas não podemos nos confundir, e deixar que pensamentos mesquinhos povoem nossa mente: “preciso ter todo o tempo do mundo para poder doar um pouquinho.” “Preciso de abundante recurso financeiro para poder doar uns trocados.” “Preciso alcançar a plenitude, em termos de maturidade e conhecimento, para poder aconselhar.” “Preciso ser fariseu para poder evangelizar!” Em verdade, só precisamos de amor e coragem… de resto, sempre haverá uma mola para nos ajudar a sermos molas!

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