QUE ALTRUÍSMO QUE NADA!

 

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De repente um adolescente num bate-papo informal teve a coragem de contar que estava fu… Tirou notas constrangedoramente péssimas em matemática no transcorrer dos quatro trimestres do ano e estava, claro, de recuperação, sem chances de reversão. Seu pai não sabia que seu boletim era, tipo assim, da cor do  sangue de Cristo, porém num escarlate incapaz de perdoá-lo dos seus pecados: hiperatividade, baixa disciplina e a incrível habilidade de enxergar as questões de matemática em hieroglifos. Atingir a nota necessária para ‘passar’ estava tão fácil quanto ele ser eleito presidente da República naquele mesmo ano. Ele vaticinou sua própria sentença ao amigo mais velho: “Vou repetir de ano…”

Aquele amigo mais velho ouviu atentamente, enquanto seu rosto mantinha uma expressão ao mesmo tempo preocupada e serena. Após rápidos cálculos que passaram pelo racional e pelo passional, ele disse ao condenado adolescente:

_Se quiser, posso dar aulas particulares para você à noite.

_ Não tenho qualquer chance. Não aprenderei em duas semanas o que não consegui num ano inteiro.

_ Não desista. Jamais desista!

_Não tenho dinheiro.

_ Faço de graça, desde que seja nas minhas regras.

_  Quais regras? – perguntou o púbere, mais por curiosidade e educação que por crença.

_ Será todas as noites da semana, na minha casa. Chego do trabalho às seis e estudaremos até às nove, sem escalas.

_ Tá bom… Vamos tentar – respondeu sem fé.

Nas duas semanas seguintes ele caminhava meia hora por uma longa alameda até a casa do seu novo professor que pacientemente o ensinava a matéria (que para sua desagradável surpresa o obrigava a fazer TODOS os exercícios do livro, de capa a capa, um a um). Daquele forma, as aulas tinham que seguir até as dez da noite. Eram intermináveis quatro horas de tortura medieval. Se a princípio ele achou que seu amigo-professor estava sendo sádico, mais tarde concluiu que estava, na realidade, sendo masoquista – pois nenhum adulto merece gastar tanto tempo precioso assim, sem qualquer tipo de contrapartida. Aquela desesperadora liturgia permitiu que, ao fim de duas semanas equação do segundo grau tivesse se convertido de demônio a algo tão doce que o adolescente fechou a prova de recuperação com a primeira nota dez de sua vida (na verdade foi nove, mas ele prefere dizer que foi um dez, pois em terra de cego, caolho é rei).

Muito mais que o esforço do estudante, de sua persistência, de sua “meritocracia” alcançada após tantas horas de estudo, o que me chama a atenção é o altruísmo daquele amigo adulto.

Nada. Ele nada ganhou. Nadinha. .. Nada em troca, nenhum favor, reconhecimento público, muito menos aquilo que todos gostam e precisam: dinheiro. Ele apenas fez o que considerava certo. Não aguardava aplausos. Não contou a ninguém do seu feito heroico. Não reclamou do Estado, que não dava educação de qualidade. Não buscou culpados ideológicos. Não culpou o estudante por sua preguiça ou burrice. Simplesmente foi lá e fez! Sua inspiração? Altruísmo. Neste caso, produto do amor.

É lindo defender os pobres da África e assinar um abaixo assinado na internet por meio de um like no Facebook, mas gastar precioso tempo para fazer algo prático por alguém que esteja ao lado? Não, isto não! Isto já é coisa de cristãos ingênuos. Meu papel social não é ajudar o outro, mas brigar com quem eu julgo que não o faz. E em dezembro dar uma grana para uma creche qualquer. Pronto.

A história acima é real. O protagonista, você já desconfia, sou eu. O professor-herói? Meu chefe-escoteiro, cujo nome citarei para propositalmente honrá-lo mais de três décadas depois: Eduardo do Brasil Artiaga (com link no facebook para você ir lá homenageá-lo).

No transcorrer da minha existência, inúmeros foram os obstáculos que a vida me presenteou, mas a lembrança da lição de perseverança e resiliência precocemente aprendida com o Chefe Eduardo sempre me deu forças e ergueu minha cabeça. Muitas vezes que quis desistir, me lembrei dele me fitando nos olhos e firmemente dizendo: “Luciano, não desista. Jamais desista!”. Na vida perdi algumas batalhas, mas nunca desisti de lutar. Muitas das conquistas alcançadas, não o foram por competência, mas por persistência. O altruísmo do Eduardo, fruto do amor por ele demonstrado na prática, tatuou na minha alma a lição de jamais perder a esperança e a fé.

“Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Porém a maior delas é o amor.” (1Co,13:13)

 

 

 

 

 

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