Religião Sustentável.

Por Luiz Felipe Pondé

Recebemos, recentemente, a visita do líder religioso budista tibetano Dalai Lama. Os iniciados tiveram surtos místicos?

Nada contra ele. De fato, o líder budista tem uma imagem positiva no Ocidente, ao contrário do papa Bento 16, que é visto como conservador.

O Dalai Lama defende tudo que gente legal defende: o verde, a tolerância com o “outro”, um capitalismo do bem, enfim, uma religião sustentável nos termos que ocidentais que migram pra religiões orientais costumam gostar, ou seja, de baixo comprometimento religioso. Além de, nela, não ter nenhum parente chato.

Uma religião sustentável é uma religião na qual ninguém tem de sustentar nada além de uma dieta balanceada, uma bike legal e um pouco de meditação durante a semana. De empresários “do bem” aos falantes da língua tibetana, muita gente correu pra ouvir essa sabedoria “estrangeira”.

Religiões são sistemas de sentido. A vida, aparentemente sem muito sentido, precisa de tais sistemas. A profissão pode ser um. A dedicação aos filhos, outro.

A história, a natureza, grana também serve. Enfim, muita coisa pode dar sentido a uma existência precária como a nossa, mas nada se compara a uma religião.

Para funcionar, as religiões têm de garantir crenças e constranger comportamentos a partir de liturgias, mitos, exercícios de poder sacerdotais e regras cotidianas munidas de “sentido cósmico”.

Você não “acessa” o sentido oferecido sem “pagar”, com a própria adesão, o pacote completo. Isso serve para o catolicismo e para o budismo, ao contrário do que pensa nossa vã filosofia “nova era”. No Oriente, o budismo é uma religião como qualquer outra, cheia de vícios e abusos.

A crítica à religião no Ocidente passou pela mão de grandes pensadores. Freud disse que religiosos são obsessivos que não sobreviveram bem à falta de amor incondicional da mãe e à miserável castração do pai verdadeiro, daí creem num Deus todo-poderoso que os ama.

Nietzsche identificou o ressentimento como marca dos religiosos que são todos uns covardes. Feuerbach sacou que Jesus é a projeção alienante de nosso próprio potencial.

Marx acrescentou que essa alienação é concreta e que se ganha dinheiro com isso. Enfim: o religioso é um retardado, ressentido, alienado e pobre, porque gasta dinheiro com o que não deve, a saber, os “profissionais de Deus”.

O que eu acho hilário é como muito “inteligentinho” acha que o budismo seja uma religião diferente das “nossas”.

Ela seria sem “vícios” e “imposições”. Pensam, em sua visão infantil das religiões orientais, que dramas sexuais só afetam celibatários de Jesus e não os de Buda, e que o budismo, por exemplo, é “legal”, porque não tem a noção de pecado.

O budismo ocidental que cultua o Dalai Lama é o que eu chamo de budismo light. O perfil desse budista light é basicamente o seguinte.

Vem de classe social elevada, fala línguas estrangeiras, é cosmopolita, se acha melhor do que os outros (apesar de mentir que não se acha melhor, claro), tem formação superior, mora na zona oeste ou na zona de sul de São Paulo, come alimentos orgânicos (caríssimos) e é altamente orientado para assuntos de saúde do corpo (um ganancioso com a vida, claro).

E, acima de tudo, acha sua religião de origem (judaísmo ou catolicismo, grosso modo) “medieval”, dominada pelo interesse econômico, e sempre muito autoritária.

Na realidade, as causas da migração para o budismo light costumam ser um avô judeu opressivo, uma freira chata e feia na escola e uma revolta básica contra os pais.

Em extremos, a recusa em arrumar o quarto quando adolescente ou um escândalo de pedofilia na Igreja Católica. Além da preguiça de frequentar cultos e de ter obrigações religiosas.

Enfim, essas são a bases reais mais comuns da adesão ao budismo light, claro, associadas à dificuldade de ser simplesmente ateu.

A busca por uma espiritualidade light é como a busca por uma marca de jeans, uma pousadinha numa praia deserta no Nordeste ou um restaurante de comida étnica da moda.

A espiritualidade do budismo light é semelhante a uma Louis Vuitton falsa. Brega.

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Agora, para rir um pouco depois de um tema tão tenso, um comercial oriental de uma cerveja budista:
“LUCKY BUDDHA BEER” (Cerveja Buda da Sorte)

11 comentários em “Religião Sustentável.

  1. E ae Luciano?100%?Pois é cara…Esse religiosismo ligth ocidental é um saco mesmo.Assim como tudo ocidental ligth.

    De fato,a filosofia budista é admirável.Mas ela é admirável,quando a pessoa assume isso,vivencia isso.Não só o budismo.O islã,o cristianismo,o judaísmo.Não gosto de fanatismo,de sensacionalismo religioso a lá Datena,pautando as coisas com o medo e o temor reverencial.

    Filosofia “religiosa” (Entre aspas,pra não ficar rotulando) deve ser,e é para muitos,os pilares do convívio social,familiar,e etc.Eu gostaria que as pessoas assumissem sua fé,por se sentirem correspondidas,se sentirem seguras com isso,se sentissem bem.

    • Mano,
      não é do meu feitio criticar as opçoes religiosas ou não-religiosas das pessoas, contudo, este texto de Pondé é um soco na boca do estômago. Como todo filósofo, sarcasmo e ironia são matérias primas preferenciais.

      Faz refletir com relação aos modismos vinculados à religiosidade ou à falta dela.
      Maia

  2. Oi Luciano!

    O subtexto me chamou muito a atenção!o autor do texto é cristão ou de alguma religião existente? Sei que já deu entrevista na Veja recentemente…

    Um abraço!

  3. @RENATA bom dia,

    Pondé é colunista da veja e polếmico. Ele fala muita coisa interessante, bem como muita besteira. A parte boa dos textos dele é que são legais para iniciarem uma discussão saudável.

  4. Luciano,cê falou TUDO!

    MODISMO RELIGIOSO.Tá na moda ser isso?Sou isso.Tá na moda ser aquilo?Vou ser aquilo.

    Ou entao,podemos chamar de falta de auto-afirmação.

  5. Penso que poucas pessoas se tornem religiosas por modismo já que isso exigiria delas um certo grau de comprometimento que elas não estão dispostas a ter. E sobre o budismo “light” pode até ter algum sentido, mas eu realmente achei a forma de abordagem do texto um tanto agressiva.
    Abraços.

    • De fato, Ana, Luiz Felipe Ponde, o autor do texto, eh um cara que nao mede muito as suas palavras e nao faz questao de ser politicamente correto, o que acaba por criar textos ligeiramente agressivos.
      Obrigado por opinar.
      Luciano

  6. nao gostei desse texto

    Esse tipo de visao preconceituosa eh que gera opinoes do tipo,
    todo evangelico eh alienado ou todo pastor eh ladrao.

    desculpe a falta de acentos.

  7. Não quero discutir, mas muito me entristece ver julgamentos.
    Se não é de seu feitio criticar, então não publique textos assim, pois você se contradiz ao fazer isso. Se publica, é por que concorda. Se critica, dá margem a ser criticado.
    Religião, gosto e política não se discute. Se respeita. A não ser que queira fazer inimigos.
    Apenas faça sua parte e viva fazendo o bem, que para muitos, o que Jesus ensinou. Deixe que o Pai julgue o restante.

    • Sarah, parabens pela sobriedade em sua analise.
      De fato, concordo que ao publicar um texto, posso estar, indiretamente, usando alguem para dizer algo que gostaria de dizer mas nao tive coragem.

      Contudo, penso que o autor nao esta falando malda religiao budista, mas dos pseudo-budistas.talvez um tipo de hipocrisia.
      Enfim, nao querotambem ter que entender isto.

      Um abraco e obrigadomais uma vez.
      Bj
      Lu

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