SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO

PensamentoAceleradoO mundo está acelerado. A facilidade das conexões e comunicações, a globalização, a velocidade das informações e a democratização das notícias colocou-nos em uma posição inédita na história da humanidade. Informações que antes demandavam horas de pesquisa, idas a bibliotecas, exaustivas leituras de enciclopédias, hoje estão a um clique de nossas mentes. E ainda com a vantagem do copiar – colar. Não é mais necessário nem mesmo ler o conteúdo para se fazer um trabalho sobre ele.

O que não dizer sobre as comunicações? Aqueles que tiveram entes queridos distantes, antes do advento da Internet, sabem o que é esperar uma carta por dias, às vezes semanas, para se ter notícias. Não havia remédio, sabíamos que a espera era obrigatória ou, na verdade, normal. Não incomodava. Existem pessoas hoje que lutam contra a ansiedade ao esperar uma resposta do whatsup após 5 minutos de envio da pergunta!

Estamos diante de um fato consumado: esse novo tempo chegou e certamente não irá retroceder. Se você não estiver disposto a voltar a escrever cartas, jogue fora o saudosismo e aceite o smartphone como o bloco mágico que tem tudo o que você precisa. E te dá em segundos!

Mas, será que essa rapidez pode causar algum problema em nossa forma de pensar? Esses dias um amigo me emprestou um livro do psiquiatra Augusto Cury, que fala um pouco sobre essa aceleração na construção dos pensamentos. Ele a chamou de SPA – Síndrome do Pensamento Acelerado. Segue abaixo uma breve entrevista sobre o tema retirada do site MDEMULHER:

O que caracteriza essa síndrome? A SPA é produzida por uma hiperconstrução de pensamentos, numa velocidade tão alta que estressa e desgasta o cérebro. O resultado emocional é desastroso, há consequências para o corpo e a mente. Pensar é bom. Com consciência crítica, é excelente. Mas pensar excessivamente e sem gerenciamento é uma bomba contra a mente livre. E impede o desenvolvimento de funções da inteligência, como refletir antes de reagir, expor e não impor ideias, exercer a resiliência, colocar-se no lugar do outro. Os sintomas da SPA: fadiga, dores de cabeça e musculares, irritabilidade, sofrimento por antecipação, dificuldade para trabalhar com pessoas lentas, transtorno do sono e déficit de memória.

Por que o senhor diz que a síndrome suplanta a depressão? Segundo a Organização Mundial da Saúde, 20% das pessoas estão deprimidas. Já a SPA ocorre, provavelmente, em 80% de adultos, crianças e adolescentes. Em conferências no Brasil, nos Estados Unidos, na Espanha, Sérvia e Romênia, tenho feito um teste e os resultados são os mesmos: as pessoas apresentam três ou mais sintomas. A SPA tem traços semelhantes aos da hiperatividade, como inquietação, dificuldade de concentração e de elaborar experiências. Por isso, muitos médicos confundem os dois transtornos e prescrevem indiscriminadamente ritalina (derivado da anfetamina, que estabiliza a dopamina e a noradrenalina no cérebro, atenuando a agitação e melhorando a concentração). Um erro crasso. Os professores também estão perdidos. Para aliviar a ansiedade das crianças com SPA, são necessárias atividades lentas e elaboradas, contato com a natureza, pintura, tocar instrumentos, praticar esportes e jogos com desafios.

Onde o senhor tem visto mais pessoas ansiosas: na família, nas empresas, festas noturnas, redes sociais? Nas famílias, religiões, empresas, universidades. Não há oásis nas sociedades modernas. Steve Jobs não sabia, mas os smartphones cativam a emoção e estimulam a edição veloz de pensamentos, gerando inclusive dependência psíquica. Tire o celular de um jovem por um dia e a dependência aparece: ele fica mais ansioso, intolerante a contrariedades, com humor depressivo e num tédio mordaz. A internet trouxe grandes ganhos, mas contatos superficiais. Ali, raramente a pessoa se relaciona com alguém em profundidade e, pior, com ela mesma. Tenho falado sobre a necessidade de desintoxicação digital. Pais têm de dar limites aos filhos – eles não deveriam usar o celular o dia todo nem ficar presos a games.

Por que o mundo se tornou um lugar de hiperativos? Pelo excesso de informações não elaboradas, compromissos, pressões e uso de computador. No passado, o número de informações dobrava a cada dois séculos; hoje, a cada ano. O exagero de dados é registrado involuntariamente por um fenômeno inconsciente – o registro automático da memória, ou RAM. Uma criança de 7 a 10 anos guarda mais dados do que um filósofo grego quando seu país estava no auge.

Segundo o livro, o pensamento acelerado rouba a qualidade da emoção e envelhece o psiquismo. Qual é a explicação? A mente hiperexcitada empobrece a emoção rapidamente. Há milhões de jovens envelhecendo, com dificuldade de contemplar o belo, de ver a própria existência como um espetáculo. Ocorre uma contração da autoestima. A geração da era da indústria do lazer é a mais triste de que se tem notícia.

Por que diz que estamos morrendo mais cedo emocionalmente, embora vivamos mais tempo biologicamente? É um paradoxo. Vivemos o dobro do tempo em relação ao homem da Idade Média, quando uma amigdalite podia ser fatal. Apesar de a expectativa de vida ter crescido, a SPA leva à morte precoce do tempo emocional. Não o sentimos passar; os meses voam. Um dos desafios é dilatar o tempo, fazer muito do pouco, gastar horas com aquilo que o dinheiro não compra. Mas não sabemos lidar com isso. Temos varanda e não sentamos nela para conversar. Temos jardim e não vemos as flores.

Essa nova forma de construir pensamentos está mudando drasticamente as relações interpessoais. Com isso, todas as bases da sociedade estão sendo reeditadas e é possível que nos próximos 50 anos tenhamos tecnologias ainda mais integradas em nosso cotidiano, que certamente construirão as interfaces relacionais do mundo moderno.

Fica a dúvida: o que acontecerá como as emoções dos nossos descendentes nos próximos anos?


Entrevista completa em: http://mdemulher.abril.com.br/cultura/claudia/novo-livro-de-augusto-cury-ensina-como-livrar-a-mente-da-ansiedade

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